terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nina, a menina!


    Nina passou a perceber a vida quando por volta dos seus 3 ou 4 anos de idade sua mãe resolveu fugir de seu pai, com ela e seus dois irmãos a tiracolo. Ela não entendia porquê sua mãe estava amedrontada, acompanhada de pessoas até então desconhecidas por ela. Passaram a dormir em varandas de casas de alguma cidade entre São Paulo e Bauru. Nesta  viagem, Nina, sua mãe e seus irmãos, foram dormir num abrigo e que por muito tempo,  guardou na sua memória os lençóis brancos e limpos, a sopa que serviram e o banho quentinho que tomou.

    Quando chegaram na na cidade de Bauru, sua mãe passou a morar no Educandário onde  prestava serviços de limpeza no local, enquanto Nina morava no abrigo com outras crianças.  Passado aproximadamente um ano, certo dia, Nina foi chamada na secretaria do abrigo. Antes, ela se arrumou e quando chegou a secretaria, encontrou sua mãe e seus irmãos. Ao sair pela varanda, Nina viu o pai do outro lado do muro. Ele veio resgatar a família e ao que tudo indica, a mãe se arrependeu da fuga e resolveu retornar para casa com o marido, no bairro de nove de julho, região de São Paulo, por volta do ano de 1986. 

    Voltaram com esperanças e alegria para casa. Mas, a alegria durou poucos meses. A precariedade com que viviam numa casinha de fundos de 2 cômodos, fez com que Dinah, mãe de Nina, começasse a trabalhar de diarista para que não passassem fome. 

    Além de enfrentarem a pobreza, tinham que conviver com o alcoolismo de Jurandir, pai de Nina, que vinha embriagado de violência. As brigas entre o casal deixavam  as coisas insustentáveis. Diziam os parentes mais próximos, que uma vez a mãe de Nina, ao acionar a polícia por que  o pai havia apontado o garfo em sua  garganta, o pai convenceu os policiais que Dinah era louca e já havia passado por tratamentos psiquiátricos num hospício, e que ela o enlouquecia. Os policiais acreditaram nele. Dinah, realmente tinha sido internada num hospício, contra sua vontade, e tomou muitos remédios tarjas pretas. Os remédios eram tão fortes, que quando Dinah voltou para casa, passou a babar na hora de se alimentar. 

    As brigas entre o pai e a mãe de Nina eram constantes, e numa dessas, Dinah optou  por fugir agora dessa vez sozinha, segundo relatos de conhecidos, ela  foi  viver com um traficante da favela de 9 de julho, periferia de São Paulo, já que não recebera apoio da família que era da cidadezinha do sul de Minas, Guaranésia. 

    Nina tem cravado em sua lembrança o dia em que após tomar seu banho e  se vestir,  dirigiu-se até a calçada em frente a casa para que sua mãe lhe penteasse os cabelos. De repente, Nina e Dinah viram de longe os vizinhos correndo na direção delas e gritando: “Dinah, Dinah , o Jurandir  vem vindo aí!”. Nina apenas escutou o pente caindo no chão enquanto Dinah correu desesperada, sem levar nada, sem dar tchau.  Nina, ainda não sabia, mas aquele dia foi a última vez que sua mãe lhe penteou os cabelos, foi a última vez que viu sua mãe. Desde então, Nina passou a contar consigo mesma, tendo que sobreviver sem o amor e a proteção materna.

    Jurandir, exercia a profissão de motorista. Ao encarar a realidade da situação: um homem solteiro, sozinho e agora com três filhos pequenos para dar conta, se viu sem solução de como se sustentar e cuidar dos filhos. Como alternativa colocou-os em orfanatos, onde Nina passou a viver da infância até o início da adolescência. Seu pai ia visitá-la sempre que possível.

    Por diversas vezes Nina se compadecia do alcoolismo do seu pai. Orava a Deus para que ele tivesse forças e parasse de beber, por outro lado também sentia vergonha de sua fraqueza que colocava-a em situações vexatórias, como daquela vez em que houve quermesse no orfanato no qual Nina morava, dos 9 aos 13 anos, no sul de Minas Gerais na cidadezinha de Monte Santo de Minas. Momento que Nina deixou registrado em seu diário, seu companheiro de desabafos:


“Querido diário, hoje teve quermesse aqui no orfanato. O pátio estava cheio de barraquinhas: pastel, guaraná, artesanatos (inclusive panos de pratos, que nós mesmas bordamos). O galpão onde fazemos nossas refeições virou um palco e o cantor Dinho cantou  músicas sertanejas. Eu, a Bete e a Milaine, ficamos reparando  na “mala” do cantor kkkk.  E eu fiquei pagando pau para o baterista.

Daí, meu pai apareceu na festa e aproveitou para nos visitar, mas logo que ele chegou, eu notei que seu olhar estava meio caído, parece que mesmo que ele tome um gole que seja eu percebo, o duro é que ele nunca fica só no primeiro gole.

Dito e feito. Ele começou a beber mais e mais, a voz passou a ficar mole, foi então que, já bem alterado, ele soltou “canta uma  música em homenagem a Nina e Alberta!” Todos que estavam na festa riram. Já eu, fiquei morrendo de vergonha e fui chorar escondida no banheiro. Pelas frestas da janela, acompanhei o término da festa até meu pai ir embora. Depois, as meninas do orfanato ficaram rindo da minha cara falando: o pai da Nina estava bêbado dando bafão!

Meu Deus, que vergonha eu senti. Lembrei daquela vez que a Bete chegou da rua correndo e gritando “O pai da Nina tá perseguindo a gente, aí ele caiu e tornou a se levantar de bêbado!” Fui ver se era verdade, coloquei a cabeça para fora do alpendre e ele estava parado escorado no portão para não cair, fumando seu cigarro e olhou-me. Senti que não reconheceu sua  própria filha. 


Essas coisas me deixam tão triste, peço a Deus para ele ficar bom e se curar, sinceramente, eu não sei o que fazer. Quando eu crescer, vou estudar bastante para achar uma cura para essa doença, porque quando ele bebe, ele se transforma.

Neste dia Nina se sentiu tão inadequada! Chorou até dormir, e cresceu querendo entender tudo e aquela situação. Ouviu dizer que o alcoolismo era uma doença e pensou: “se é doença, há de ter cura, e se ainda não acharam-na, vou estudar bastante e encontrá-la!”


    Aos 14 anos, quando seu pai a levou para morar com ele, antes de sair do orfanato,  a freira preocupada a chamou de canto e disse: “Olha, preciso lhe falar uma coisa... seu pai tem problemas com a bebida, quando você ver que ele está bêbado, não fica perto dele não!”. Nina ficou abismada com a fala da freira e respondeu-lhe: “Imagina, Irmã Margarida! Ele é meu pai! E também terá a responsabilidade de cuidar da gente e não vai mais beber!” A freira, uma senhora negra com seus 60 e poucos anos, com a sabedoria de uma digna preta véia, respondeu-lhe: “HOMEM É HOMEM!” frase que ficou guardada na cabeça de Nina.

    Fato que veio a se confirmar quando um dia numa dessas crises de bebedeira, seu pai lhe pediu para apalpar os seus pequenos seios. Na mesma hora, lhe veio a frase da freira na mente, e se deu conta do perigo que corria. Sem pensar e planejar muito, resolveu  sair de casa! 

    Foi morar e trabalhar de babá na casa de uma família. O pai da criança que ela cuidava, sempre que podia investia nela, e Nina, no início da adolescência, com os hormônios à flor da pele, deixava. Ele passava a mão entre as suas pernas, e ela  gostava. Até que o homem lhe tirou a virgindade. Um homem feito, casado por volta de seus 38 anos. Os tios desse homem sabiam, mas ninguém falava nada. Já o pai de Nina, quando ouviu boatos no bar sobre o que estava acontecendo com Nina, tirou-a da casa. A princípio, Nina até pensou em deixar rolar o romance com o homem que a desvirginou, mas depois passou a sentir nojo daquela história.

    Voltou a morar com seu pai, irmão e irmã. Foi quando a afilhada de Dona Marieta, uma costureira que morava em São Paulo e precisava de uma babá para cuidar de seu filho, Paulinho, lhe ofereceu a oportunidade de ir morar com ela e Nina foi. As constantes brigas em casa, e as bebedeiras de seu pai, e os dois cômodos com telha de brasilit, foram motivos para Nina sair de casa em Sumaré e morar em São Paulo.

    Na cidade de São Paulo, Nina  começou a frequentar a igreja de mórmon onde  conheceu  o bispo da igreja, Melazzo, que a chamou para morar com a família dele. Nina adorava frequentar a igreja, buscava acreditar fielmente nas verdades ensinadas e que seria feliz se aceitasse Jesus e que construiria seu próprio reino.

    Um dia  o bispo lhe perguntou ao pé do ouvido se alguém já havia lhe penetrado. Nina, que havia aprendido que mentir era feio, tratou logo de dizer a verdade. Mal sabia Nina que um dia essa verdade seria usada contra ela. Certa vez, Nina se recusou a ir a um evento e o líder religioso lhe deu uma tremenda surra e disse-lhe: “Seu futuro é ser uma prostituta”! Nina no auge de sua revolta gritou: “Tu não é parente da mãe Diná pra saber!”

    Num final de tarde, Nina estava finalizando a faxina na casa desse bispo, um sobrado com salas e quartos de carpete.  Estava ela, lavando a área quando foi acometida de uma nostalgia e lembrou-se de uma música que ouvia lá em  Minas, “De que me adianta viver na cidade se a felicidade não me acompanhar...” Pensou na saudade que sentia dos irmãos, e ainda que, embora não aceitasse o alcoolismo do pai, o amava e sentia sua falta.  Saudosa de casa, concluiu que era melhor passar desaforos com os seus, do que a exploração que estava passando. Decidiu retornar ao lar.

    Nessa época seu pai trabalhava de motorista de caminhão de lixo, como funcionário público, num bairro periférico de  Sumaré, Jardim Denadai. Nina, passou a frequentar a sede regional do bairro quando conheceu uma assistente social. A profissional se compadeceu com sua história e passou a orientá-la, sobre seus estudos e a escolha de sua profissão, de como se sustentar na vida.   

    Desde então, Nina procurou cuidar de si. Sempre se sentiu responsável pelas escolhas do pai, e querendo salvá-lo, buscou estudar para se tornar uma pessoa melhor. Nina dedicou-se estudar e trabalhar muito a vida toda! Acreditava que só o conhecimento iria lhe salvar. Sua imensa necessidade de perseguir as razões de sua vida ter sido tão atípica, lhe trouxe ferramentas para encontrar a verdade e construir um novo pilar para seguir.

           Essa é a história de Nina e por isso ela merece ser contada, pois essa é uma história de resistência, da flor que desabrochou no brejo das incertezas. Quando sentia tamanha inadequação e incompreensão perante a vida, Nina chorava, orava, respirava e escolhia  seguir seu caminho. Nina se tornou uma mulher autônoma, mãe de dois lindos meninos,  professora, advogada, ativista, militante, meio baba yaga, e hoje compreende que esse foi um dos  capítulos de sua redentora história.




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